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“É preciso assumir o papel de propagadores do respeito pela diversidade”

Dr. Vinicius Vieira Mota em atendimento. O profissional atua na Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (AMAES).

Na semana do Dia Nacional de Conscientização do Autismo, conversamos com o terapeuta ocupacional Dr. Vinícius Vieira Mota. O profissional, que atua na Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (AMAES), faz um alerta para a falta de conhecimento da sociedade sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que gera preconceito e situações constrangedoras por parte das pessoas com especto autista.

Nessa entrevista, Dr. Vinicius explica o que é o transtorno, as abordagens de tratamento e conta um pouco da sua experiência profissional em prol da qualidade de vida das pessoas com TEA e de suas famílias.

1 – O que caracteriza o TEA?

A partir da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), de 2013, houve a fusão de áreas diagnósticas anteriormente separadas: o Transtorno Autista, o Transtorno de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento. Dessa forma, passaram a ser denominados como Transtorno do Espectro Autista (TEA), que é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por prejuízos persistentes na comunicação social  (ausência ou atraso na linguagem, déficits na compreensão e uso de gestos e expressões faciais, e imitação reduzida); na interação social (dificuldade de contato visual e físico, isolamento social, compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto); além da presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (uso repetitivo e não funcional de objetos, fixação por rotinas e resistência à mudanças, estereotipias motoras, respostas exageradas aos estímulos sensoriais do ambiente).

2 – Como diagnosticar o TEA em uma pessoa?

Para o processo diagnóstico é fundamental a implicação de uma equipe multiprofissional, fazendo-se necessária uma escuta qualificada da família da pessoa com suspeita de TEA, que trará informações sobre a história de vida (gestação, momento do parto, os marcos do desenvolvimento, intercorrências de saúde), o contexto vivido (configuração familiar, grupos sociais a qual faz parte) e as queixas. A partir disso, aplicam-se testes e realizam-se exames (neurológicos, metabólicos, genéticos) que complementam esse processo. Apesar do diagnóstico definitivo de TEA ser fechado a partir dos três anos, é importante que se avalie o quanto antes, desde o primeiro ano de vida, para que a partir da suspeita seja realizada a intervenção de forma precoce, minimizando o comprometimento.

3 – Por que a Terapia Ocupacional é importante para as pessoas com TEA?

A intervenção terapêutica ocupacional objetiva minimizar os efeitos debilitadores no comportamento, aprendizagem e desenvolvimento da pessoa com TEA, promovendo um maior nível de autonomia, independência e engajamento em suas ocupações. É o caso das atividades de autocuidado (alimentação, vestuário, higiene pessoal), e das atividades de lazer, o que implica na sua participação social e na sua qualidade de vida, bem como de seus familiares.

4 – Quais são os benefícios da Terapia Ocupacional para a criança com TEA?

Os benefícios são inúmeros. Destaco a melhora da resposta adaptativa aos ambientes, a diminuição de comportamentos estereotipados e de autoagressão, e o aumento da concentração e capacidade de aprendizagem. Também temos o brincar funcional e diversificado, a independência nas atividades de vida diária e nas atividades instrumentais, o aumento da autoconfiança e o aumento do repertório de habilidades sociais.

5 – Com o tratamento adequado, quais habilidades a criança com autismo consegue ter?

A pessoa com TEA pode vir a aumentar sua concentração, brincar funcionalmente, atender a comandos, identificar elementos da linguagem (cores, formas, animais, frutas, números, letras) e solucionar problemas. Também pode vir a ter consciência do seu corpo e da sua força, melhorar o desempenho em atividades físicas, ser capaz de realizar encaixes, quebra-cabeças, pintar, recortar e escrever de forma adequada.

Com as devidas orientações e treinos, pode aumentar o nível de independência para alimentar-se, vestir-se, amarrar o cadarço, abotoar roupas, usar o banheiro, tomar banho, escovar os dentes, pentear-se, preparar refeições, reconhecer e dar uso ao dinheiro, fazer compras e cumprir tarefas domésticas. Além disso, o tratamento favorece a interação social e diminuição dos comportamentos inadequados.

6 – Como funciona o tratamento para TEA? Como é feito?

O tratamento pode acontecer em um contexto clínico, escolar, nos espaços públicos (acompanhamento terapêutico) e no próprio domicílio, envolvendo a atuação de diferentes profissionais (Terapeuta Ocupacional, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Fisioterapeuta, Médico, Psicopedagogo, Educador Físico, dentre outros) e os próprios cuidadores. Existem hoje diversas abordagens de tratamento para o autismo, cada uma com sua especificidade. São elas:

Integração sensorial: Teoria neurocomportamental que relaciona a dificuldade de aprendizagem e o desempenho ocupacional ineficiente às desordens na percepção, organização e interpretação das informações sensoriais, ou seja, quando o indivíduo tem reações extremas diante dos estímulos sensoriais.

Análise do Comportamento Aplicada (ABA): envolve a avaliação, o planejamento e a orientação, por parte de um analista, das ações do sujeito, bem como dos eventos anteriores e consequentes dessas ações, priorizando o desenvolvimento de habilidades sociais e motora nas áreas de comunicação e autocuidado, além da redução de comportamentos não adaptativos, os substituindo por novos comportamentos socialmente aceitáveis.

Tratamento e Educação para Crianças com Transtornos do Espectro do Autismo (TEACCH): Objetiva o desenvolvimento da independência através da educação, estruturando fisicamente o ambiente de tratamento e aprendizagem.

Tratamento Medicamentoso: Tem como objetivo diminuir alguns sintomas como agressividade, autoagressão, episódios de raiva e descontrole, distúrbio no sono e estereotipias motoras.

Comunicação Suplementar e Alternativa: São sistemas de comunicação alternativos à fala, como por exemplo língua de sinais, símbolos e figuras.

Outras abordagens de tratamento: Método Padovan de Reorganização Neurofuncional, Método Son-Rise, Floortime, Equoterapia, Psicomotricidade, dentre outras.

8 – Como é a sua experiência com as crianças com TEA? Trabalha há quanto tempo nesse ramo?

Tive minha primeira experiência com pessoas com TEA em 2015, durante o período de estágio em que estive no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSI) e na APAE, ambos em Vitória. Diante de universos únicos e cheios de desafios, encantei-me pelas relações construídas e pela sutileza das conquistas alcançadas, que requerem abertura, paciência, estudo, criatividade, dedicação e afeto. Pouco tempo depois, tendo concluído a graduação de Terapia Ocupacional pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), busquei espaços onde voltaria a atender esse público e fui contemplado com duas grandes oportunidades, atendendo um total de aproximadamente 40 pessoas com TEA na APAE de Vila Velha e recentemente também na Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (AMAES).

Em ambas as instituições, presto atendimento clínico em Terapia Ocupacional atendendo cada paciente uma vez por semana. A partir das avaliações clínicas e dos testes aplicados nos primeiros atendimentos, formulo o objetivo do tratamento de forma personalizada e em conjunto com a família, elencando as habilidades prioritárias a serem trabalhadas. Dessa forma, o plano de tratamento inclui atividades lúdicas compatíveis com o contexto e capacidade de cada paciente, aumentando o grau de complexidade de acordo com sua evolução, que é acompanhada pelo familiar com feedback a cada atendimento, acompanhado de orientações sempre que pertinente.

Os desafios são muitos e o aprendizado é diário, tanto com os próprios pacientes quanto com a experiência de seus familiares e da minha equipe de trabalho. No entanto, a formação continuada se faz necessária, e pensando nisso ingressei recentemente em uma pós-graduação nessa área, que vem elucidando minha prática. Espero assim poder contribuir cada vez mais com a qualidade de vida dessas pessoas e de suas famílias.

9 – Qual é a mensagem que você deixa para as pessoas por conta do Dia Mundial de Conscientização do Autismo?

Diante do aumento progressivo de número de casos de pessoas com TEA e das diversas abordagens de tratamento que vem surgindo, cabe à comunidade profissional buscar se atualizar para bem acolher as demandas específicas de cada pessoa e seus familiares. É preciso assumir o papel de propagadores do respeito pela diversidade, divulgando as informações que são pertinentes para que cesse o preconceito e situações constrangedoras em que vivenciam rotineiramente devido à falta de tolerância e sobretudo de conhecimento da sociedade.

“É preciso divulgar informações sobre o TEA para que cesse o preconceito e situações constrangedoras, que acontecem devido à falta de tolerância e de conhecimento da sociedade”, disse Dr. Vinicius.

Minicurrículo:

Vinícius Vieira Mota está cursando a Pós-Graduação em “Práticas e abordagens de atuação com o Transtorno do Espectro Autista” e é graduado em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Participou de cursos como “Jogos e brincadeiras nos processos de aprendizagem e reabilitação”, “Funcionalidade, avaliação, movimento e estímulo” e “Estimulação cognitiva e motora aplicada a idosos”. Participou do 1º Congresso de Autismo: Nutrição e Esporte como Terapias e do International Workshop on Assistive Technology (2015).

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