A Terapia Ocupacional no auxílio ao paciente com esclerose múltipla

No Dia 30 de agosto é comemorado o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla. Para falar mais sobre esta doença, seus sintomas e de que maneira a Terapia Ocupacional pode ajudar a trazer autonomia e devolver a qualidade de vida aos pacientes, convidamos a Dra. Ana Raquel Silva, terapeuta ocupacional com especialização em Terapia da Mão e Reabilitação Neurológica em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal de São Carlos e integrante do Centro de Reabilitação Física do Estado do Espírito Santo (Crefes).
1) O que é esclerose múltipla?
A esclerose múltipla é uma doença desmielinizante, progressiva, auto imune que acomete o sistema nervoso central. Isso significa que as células de defesa do organismo passam a identificar a bainha de mielina como uma ameaça e começam a atacá-la. A bainha de mielina, por sua vez, é uma capa que envolve os neurônios e ajuda no transporte de informações entre o sistema nervoso central e as demais estruturas do corpo. Quando ela está comprometida essa comunicação fica prejudicada.
2) Quais os sintomas?
Como todo o sistema nervoso central pode ser comprometido, os sintomas podem aparecer de forma diferenciada para cada paciente dependendo da área que está sendo afetada. Os mais comuns são: fadiga, problemas de equilíbrio e coordenação, visão dupla ou embaçada, alterações cognitivas e emocionais, dormência e formigamento nos braços ou nas pernas, incontinência urinária, disfunção sexual, entre outros.
3) Como se adquire?
Ainda não se sabe ao certo o que leva as células de defesa a atacarem a bainha de mielina. Uma das hipóteses é que há uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Alguns genes responsáveis por regular a resposta autoimune do organismo foram associados ao desenvolvimento da doença. Outra teoria é a exposição a determinados tipos de vírus, também a falta da vitamina D, porém nada comprovado ainda.
4) Como identificar a doença, tendo em vista que os sintomas podem aparecer em um momento, mas podem demorar a voltar?
Ao identificar os sintomas deve-se procurar um médico neurologista que irá proceder com a avaliação que inclui exame físico, coleta da história do paciente, exame neurológico e também poderá solicitar ressonância magnética, punção lombar e exame de potencial evocado para confirmar o diagnóstico.
5) Identificada a doença, como deve ser o tratamento?
O tratamento consiste em medicamentos que irão diminuir a resposta autoimune e reduzir a atividade inflamatória. Outros medicamentos poderão ser utilizados para tratar os sintomas apresentados e associar o tratamento à reabilitação com equipe multidisciplinar para redução da incapacidade.
6) De que maneira a Terapia Ocupacional atua no auxílio aos pacientes de esclerose múltipla? 
A Terapia Ocupacional tem como objetivo maior promover a autonomia, independência e melhora na qualidade de vida. Ao atuar com essa população o profissional irá utilizar de técnicas de conservação de energia e simplificação da tarefa para garantir que a pessoa com esclerose múltipla possa realizar suas atividades do dia a dia com maior independência possível. É possível ainda realizar intervenções para adaptação e readequação tanto do ambiente doméstico, como do ambiente de trabalho, para assegurar a participação desse indivíduo na esfera familiar e comunitária.
7) A esclerose é degenerativa, mas o tratamento multidisciplinar pode retardar o avanço da doença, ou até mesmo contê-lo?
Em cada paciente a esclerose múltipla pode apresentar um curso diferenciado. O tratamento multidisciplinar visa a diminuição dos sintomas e melhora na qualidade de vida.
8) Como deve ser a participação da família junto aos pacientes de esclerose?
A família é parte do sistema de suporte da pessoa com esclerose múltipla. Ela deve estar sempre envolvida no tratamento para compreender melhor a doença e auxiliar os
profissionais a oferecer o melhor cuidado possível.
9) O que deve fazer o terapeuta ocupacional que deseja trabalhar nesta área, ou seja, quais os caminhos ele deve buscar? 
É importante aprofundar os conhecimentos em neurologia para intervir tanto nos sintomas físicos quanto nos cognitivos. Também é importante o uso de tecnologia assistiva e sempre buscar ações integradas com os demais profissionais, médico neurologista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicólogo, assistente social e claro, a família.
10) A senhora poderia citar alguma experiência marcante na atuação junto à esclerose?
Cada paciente é marcante à sua própria maneira. Eu me lembro sempre de um paciente que tive que era um artesão incrível, muito talentoso. Quando ele chegou a primeira vez na minha sala, veio acompanhado pela esposa e os dois estavam muito abalados pelo diagnóstico. Toda semana ele fazia várias perguntas sobre a doença, queria saber o que poderia acontecer e como ele deveria se cuidar. Foi bacana porque além dos exercícios e treinos, nós acabamos estudando juntos, ele pesquisava alguma reportagem ou lia algo sobre esclerose múltipla e trazia para mim, queria saber minha opinião, ou queria que eu explicasse algo que ele não havia entendido. Às vezes parecia que eu estava de novo na faculdade fazendo prova. Ele precisava daquele acolhimento e daquelas orientações. Depois de um tempo trabalhando juntos ele conseguiu assimilar essas informações e entender melhor sua condição. Teve uma boa resposta com a reabilitação, conseguiu voltar a trabalhar, até tentou me ensinar um pouco do trabalho dele, mas não tenho esse talento. Para mim foi uma ótima experiência pela forma da construção da relação terapêutica e pelos bons resultados que conseguimos.
Mini-currículo 

Ana Raquel Silva, formada em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal do Paraná em 2013, pós graduação com especialização em Terapia da Mão e Reabilitação Neurológica em Terapia Ocupacional pela Universidade Federal de São Carlos em 2017. Terapeuta Ocupacional no Centro de Reabilitação Física do Estado do Espírito Santo, atuando no ambulatório neurológico adulto desde 2014.

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