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Equoterapia: fonte de reabilitação global do indivíduo com o suporte psicológico e motor sobre o cavalo

A Equoterapia é um dos métodos interdisciplinares que passam pela Fisioterapia e Terapia Ocupacional e que busca o desenvolvimento de pessoas com deficiência ou necessidades especiais. O fisioterapeuta Ivan Loss é uma das referências em Equoterapia no Espírito Santo. Em entrevista para o site do CREFITO 15, ele falou sobre os bastidores desta prática, a formação necessária e o resultado que pode trazer ao paciente. Acompanhe!

Dr. Ivan, gostaria que o senhor explicasse o que é a Equoterapia.

A Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-BRASIL) define a Equoterapia como um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiências e/ou necessidades especiais.

Neste método, o processo de reabilitação é embasado principalmente no andar do cavalo, que produz uma série de deslocamentos, que resultam em um movimento tridimensional, sendo este 95% semelhante ao movimento tridimensional realizado pela pelve humana durante a marcha.

20161006_074930-1024x576Cada animal possui uma singularidade em seu andar. Em geral um cavalo andando ao passo, gera movimentos ritmados, constantes, simétricos que estimulam diversos receptores sensoriais (articulares, táteis, proprioceptivos, visuais, vestibulares) que transmitem ao sistema nervoso central informações sobre o corpo durante a terapia. Essas informações são decodificadas, interpretadas, integradas, onde é gerada uma resposta adaptativa. Essa resposta do sistema nervoso central contribui para o desenvolvimento do equilíbrio, tônus, força muscular, conscientização do próprio corpo, coordenação motora.

O uso de cavalos busca atingir vários objetivos motores e psicológicos.

A prática da Equoterapia, do ponto de vista da Psicologia, é importante por “desencadear” vários comportamentos e sentimentos, com os quais, o psicoterapeuta irá trabalhar utilizando o cavalo como agente facilitador.

Em relação ao praticante, o profissional irá priorizar o trabalho emocional (envolvendo também o ser global, que são os fatores biológicos, mentais e sociais). Irá levar em conta aspectos como frustração, auto-estima, rejeição, carência afetiva, criatividade, noção de espaço (no que diz respeito à descoberta do próprio “eu” e de seu espaço no mundo) e consciência corporal.

O tratamento equoterápico tem como objetivo proporcionar uma reabilitação global, uma vez que o individuo tenha acesso a suporte psicológico e motor sobre o cavalo.

A Equoterapia é interdisciplinar. Como funciona o trabalho com as outras áreas, como educação e equitação, por exemplo?

20161006_094442-1024x1092A prática da Equoterapia é realizada por equipe multiprofissional que atua de forma interdisciplinar. A equipe deve ser a mais ampla possível, composta por profissionais das áreas de saúde, educação e equitação, tais como: fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, psicólogo, professor de educação física, pedagogo, fonoaudiólogo e outros.

Na composição da equipe multiprofissional levamos em consideração que toda a equipe atua em todos os programas de forma direta ou indireta, na qual possui responsabilidades adversas, tais como: identificação do programa e sua respectiva finalidade e os objetivos a serem alcançados.

  Há também a necessidade de médicos que atuem como orientadores, onde farão a avaliação clínica e darão respaldo à equipe em todos os aspectos clínicos e em particular na alta do praticante. Para acompanhar a evolução do trabalho e avaliar os resultados obtidos, deve haver registros periódicos das atividades desenvolvidas com os praticantes.

 A segurança física dos praticantes deve ser uma constante preocupação de toda equipe.

A Equoterapia é recomendada para que tipo de portadores de necessidades especiais?

Quando falamos em abordagens da Equoterapia nos referimos a um grande espectro terapêutico, objetivando benefícios físicos, psíquicos, educacionais e sociais de pessoas com deficiências físicas ou mentais e/ou com necessidades especiais, sendo assim a mesma é indicada para tratamento de casos de encefalopatia crônica não progressiva da infância, acidentes vasculares encefálicos, traumatismos crânio-encefálicos, traumatismos raquimedulares, transtorno déficit de atenção e hiperatividade, atrasos no desenvolvimento neuropiscomotor, autismo, Síndrome de down, parkinson, distúrbios cerebelares.

O método também pode ser usado para aliviar ou minimizar problemas de estresse, depressão, dificuldades no aprendizado, síndrome do pânico.

Assim como qualquer outro tratamento, a Equoterapia é indicada e promove resultados benéficos, porém é contra-indicada em determinadas situações. Para entender melhor as indicações e contraindicações, é necessário levar em conta as condições físicas e mentais dos praticantes observadas por um profissional devidamente habilitado.

 A prática da Equoterapia deve ser evitada em pacientes com quadros inflamatórios e infecciosos agudos, luxação de quadril, osteoporose, hérnia de disco intervertebral, alergia do cavalo e dos materiais que envolvem a sessão, feridas abertas, alterações comportamentais que coloquem em risco a segurança da equipe e do praticante e outros.

Como e por que começou a trabalhar com a Equoterapia?

20161006_0747020-1024x576Sempre gostei de cavalo, assim como é difícil achar alguém que não goste. Sempre gostei também de coisas e assuntos que me fizessem pensar e não apenas gravar. Durante meu processo de formação acadêmica, não tive contato com cavalos, muito menos com a Equoterapia, levando-me a distanciar de minha realidade atual. Porém, me apaixonei pela fisiologia durante a faculdade.

Logo após a faculdade tive a certeza do que eu queria para minha vida: a reabilitação cardiorrespiratória. Porém, por diversos motivos não segui a área pretendida. Entre empregos, surgiu a oportunidade de trabalhar na Apae de Colatina, que possui um centro de Equoterapia, onde estou até hoje. Era a junção da oportunidade de resgatar o contato com o animal, só que agora de forma terapêutica.

Além de muito gratificante, a Equoterapia requer muito conhecimento, tanto da área terapêutica, quanto da área do cavalo. Sendo assim, comecei minha jornada de estudos e aperfeiçoamentos. Como capacitações realizei o curso básico em Equoterapia, o curso avançado em Equoterapia, o curso de equitação para Equoterapia, cursos na área do cavalo, estou pós-graduando em Equoterapia, além de varias participações em fóruns, workshops e outros. Além de ser preceptor de estágio de Equoterapia pelo Centro Universitário do Espírito Santo – Unesc.

Na verdade, nada disso me define, acredito que o mais importante mesmo é minha vontade que este método chegue a quem precise e que cada vez mais vidas possam ser modificadas através da Equoterapia.

Como é o treinamento dos profissionais que trabalham com a Equoterapia em relação aos animais?

Sabemos que existe um tripé mínimo para a prática da Equoterapia. O elemento sem o qual esta atividade seria completamente impossível é o Instrutor de equitação. Parte do suporte essencial, o instrutor ou equitador, como alguns preferem chamar é o principal responsável pelo cavalo, sua escolha, seu manejo e outros tantos aspectos.

Definir as funções de um instrutor de equitação na equipe é uma coisa séria e muito distinta e algumas delas, como por exemplo, é a escolha dos cavalos adequados para a Equoterapia. Ensinar os membros da equipe a montar, conduzir o cavalo em várias andaduras e na montaria acompanhada, em sela, manta ou selote, com ou sem estribos, conforme o planejamento feito anteriormente. Exercitar cada cavalo, acostumá-los com equipamentos, materiais ou brinquedos utilizados.

Escolher em conjunto com a equipe o animal e o material a ser usado, levando em conta as características do praticante e as do cavalo. Orientar os auxiliares-guia a respeito da maneira correta de guiar o cavalo à mão, à guia ou outro modo definido previamente pela equipe.

Existe uma evolução diferente no tratamento de pessoas portadoras de necessidades especiais que fazem a Equoterapia? Se sim, por que isso acontece?

Sim. A Equoterapia utiliza a similaridade entre o ritmo do movimento do animal e do ser humano de forma que permite alcançar ganhos motores. Por outro lado, o cavalo também desempenha importantes estímulos psicológicos e cognitivos no indivíduo. Portanto, deve ser considerado que, além dos estímulos às funções motoras, também ocorre o desenvolvimento de vínculos afetivos entre o praticante e o animal. O animal torna-se um agente facilitador para as diversas intervenções a serem estabelecidas com a finalidade de promover melhorias.

É de fundamental importância o trabalho de uma equipe multidisciplinar capaz de escolher o animal e suas características mais adequadas ao praticante da equoterapia. Os efeitos terapêuticos que podem ser alcançados com a equoterapia dependem também do prognóstico do praticante, que será um fator de peso na cronologia da reabilitação.

É sabido que cada indivíduo possui sua singularidade no processo de reabilitação, bem como a metodologia que lhe é aplicado. Assim sendo a associação nacional de equoterapia organizou a Equoterapia em quatro programas, tais como: hipoterapia, educação e reeducação, pré-esportivo, prática esportiva paraequestre. Esses levam em conta o nível de funcionalidade e os propósitos a serem alcançados pelos praticantes.

A Apae de Colatina possui o Centro de Equoterapia, que acaba sendo uma referência. Como é a estrutura do Espírito Santo hoje nesse quesito? 

Durante minha jornada de busca pelo conhecimento, percorri vários estados. Vejo o Espirito Santo um estado que possui um enorme potencial no âmbito da Equoterapia. Na verdade, o Espírito Santo possui muitas vantagens perante outras unidades federativas. Mesmo com todos os problemas, possuímos uma rede de assistência à pessoa com deficiência no Espírito Santo invejável, temos Pestalozzis, Apaes e outros. Possuímos grandes faculdades, temos um Conselho de profissão somente para o nosso estado. Acredito o que talvez possa estar faltando é a sincronização de forças em prol da Equoterapia. Vale ressaltar que, além da Apae de Colatina, temos muitos outros centros de equoterapia que desenvolvem excelentes trabalhos e que merecem todo nosso apoio bem como excelentes profissionais.

O que poderia acrescentar em relação a esta prática da fisioterapia?

Mesmo que nos últimos anos a Equoterapia tenha crescido de forma expressiva e que tal prática envolva muito conhecimento, assim como em outras áreas da fisioterapia, ainda é necessário desenvolvimento de estudos técnicos científicos. Mesmo que os resultados empíricos sejam expressivos e satisfatórios, ainda sim é necessária uma árdua tarefa de provar para os profissionais a necessidade da metodologia científica na Equoterapia e que os terapeutas são autores fundamentais para a realização de tais mudanças.

É necessário o despertar interno de cada um para a busca do conhecimento. Precisamos contribuir na formação de pensadores e não simples conhecedores.

Como a Equoterapia pode se desenvolver mais no Estado?

Através da união. Acredito que quando nos unimos somos mais fortes em prol de um objetivo. Unidos podemos organizar encontros, workshops, jornadas, compartilhar saberes e experiências. Se quisermos algo estruturado, que funcione, devemos nos unir.

Quando estivermos unidos, conseguiremos buscar/lutar nossos direitos, bem como despertarmos o interesse dos órgãos públicos para tal prática. Conseguiremos demonstrar aos órgãos competentes a necessidade de apoio para manutenção dos centros de equoterapia.

Outra forma desenvolver mais a equoterapia no estado é apoio aos profissionais e entidades que já estão na área, para que os novos profissionais possam se espelhar no trabalho por eles já desenvolvidos.

O que os interessados em buscar este tipo de tratamento devem fazer?

Acredito que melhor a se fazer devido tamanha complexidade é procurar um profissional devidamente habilitado e manifestar a sua vontade. O profissional devidamente capacitado irá avaliar a individualidade do caso e tomar as medidas necessárias.

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